Grande campanha aquela. O Estádio Marcílio
Ribeiro do Amaral lotava nas partidas em casa e nos jogos fora nós
invadíamos a cidade e o estádio da outra equipe. Em algumas vezes
estávamos até em maior número que a torcida local. Se não éramos
mais, pelo menos fazíamos mais barulho,
com
a nossa batucada e as nossas bandeiras nas cores preto e branco
sendo agitadas.
Estou me referindo à campanha do Bocaina F.C. no
Campeonato Amador Regional de 1969. Que timaço nós tínhamos. De fora
eram alguns da defesa, como o goleiro Beto, mais Stubé e Heraldo,
que vieram de Ribeirão Bonito. Os outros eram pratas da casa: Pêta,
Tadeu Vicentini, Zé Fiamengui, Jorge Fiamengui, Têco Fiamengui,
Gusto Frari, Rosca, João Mário Fuzetti. O técnico era o Miltinho
Cardoso, que se auto-intitulava "bonito e gostoso". Apareceu em
Bocaina vendendo pneus para uma empresa de São Paulo, aqui ficou na
pensão da Zélia. Dirigiu a equipe e foi vice-campeão amador de 1969.
Só não fomos campeões porque forças estranhas agiram e o título
ficou com a Usina São José, de Macatuba.
O José Carlos Megale era o presidente do time.
Naquele tempo, a sua Indústria Megale estava a todo vapor. Nos
domingos quando o Bocaina F.C. jogava fora, ele coloca três
caminhões da empresa, que tinham grades para carregar caçambas e
caixas de luz produzidas pela indústria, e
neles
nós íamos, como gado, não importa. Invadíamos a outra cidade,
mandávamos no campo. Fora os torcedores que iam com seus próprios
veículos e em lotações.
Foi assim em Brotas no primeiro turno. Invadimos
o estádio deles. Aí torcedores brotenses, incitados por um tal
"Bahia" (jogador do time de Brotas) passaram a atirar objetos no
campo contra os nossos jogadores e a xingá-los. Nós não tivemos
dúvida: atravessamos por detrás do gol com as nossas bandeiras e
batucada e fomos lá tirar satisfações com a torcida da casa. Quando
o jogo terminou, foi o maior quebra pau que já vi num campo de
futebol.
Na saída da cidade paramos os caminhões, peruas,
carros, para contar quantos faltavam da nossa torcida. Alguns tinham
ficado para uns curativos no pronto-socorro da cidade. Em tempo: o
jogo terminou 1 a 1.
No segundo turno, o Brotense veio a Bocaina.
Prevendo o pior, a Liga Jauense de Futebol requisitou tropa de
choque da Polícia. Mesmo assim, o tal Bahia entrou em campo com um
curativo num dos supercílios. É o que o Omar de Dio, o argentino
mais bocainense e mais palmeirense que já vi, socou o jogador quando
ele desceu do ônibus para entrar no vestiário. No intervalo, os
jogadores do Brotense tiveram que ficar sentados no meio do gramado.
Bahia foi o mais hostilizado pela torcida bocainense. Ganhamos deles
por 3 a 1.
Após as partidas todos se dirigiam ao Bar do
Lito, onde eram comemoradas as vitórias com muita cerveja.
Lembro-me, trabalhava ali. Quando ia pagar o que consumia, o jogador
Heraldo tinha na carteira uma nota de um dólar. Eu sempre pedia para
ele aquela nota. "Se o Bocaina for campeão eu te dou a nota", disse
ele um dia. O Bocaina foi vice, mas após o último jogo Heraldo foi
ao Lito e me deu a nota de um dólar.
Aquele campeonato foi uma demonstração de amor a
uma equipe, a uma cidade, como nunca tinha visto antes. E nem vi
depois. Até Miltinho Rodrigues, que nada tinha de bocainense,
comprava qualquer briga se alguém falasse mal da cidade ou do time.
Aquela nossa batucada e as bandeiras eram algo indescritível .
Se em 1978 o Brasil se considerou campeão moral
da Copa do Mundo da Argentina, certamente o Bocaina F.C. também pode
se considerar campeão moral do Campeonato Amador Regional de 1969.