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| RELIGIÃO Da pequena capela à imponente igreja Matriz O principal templo católico de Bocaina guarda um dos mais ricos acervos artísticos do estado de São Paulo. Ali também estão os restos mortais do pároco que permaneceu por mais tempo à frente da comunidade local Em 1893 foi nomeado para assumir a paróquia de São João da Bocaina o padre Mariano Curia, que aqui permaneceu por 21 anos, até 1914, sendo um dos principais responsáveis pela construção da igreja Matriz de São João Batista. Antes da chegada do padre Curia, os ofícios religiosos eram realizados uma vez por mês por um padre visitante da cidade de Jaú. Documentos constantes do livro Tombo da
diocese de São Carlos trazem a narrativa do padre Curia
relatando a edificação da igreja Matriz: "Tomando posse em 17 de
maio de 1893, achei a capela bastante pequena e desprovida de
altares e outros objetos necessários aos cultos e, em vista
disso, nomeei uma comissão composta dos senhores Aquilino José
Pacheco, Francisco Pacheco de Almeida Prado, Vicente de
Alvarenga Rangel, Victório Garcia de Almeida, Manoel
Os próprios membros dessa comissão constituída pelo padre foram os responsáveis pela doação do altar-mor e dos altares laterais da capela. Depois de construir os altares e dotar a capela de outras melhorias, obtidas graças à ajuda da comunidade católica do povoado, em 1907 o padre Curia nomeou uma nova comissão de paroquianos, desta vez com o objetivo de promover a ampliação da capela e a edificação de sua torre. " (...)a 31 de outubro de 1910, recebia inteiramente pronta a nova Matriz, entregando ao empreiteiro o saldo que tinha de receber e passando ele um recibo do valor final da empreitada", relata o padre Curia no livro Tombo da diocese. A praça da Matriz havia sido inaugurada no dia 12 de novembro de 1899, ainda durante a administração da quarta Intendência (1899 a 1901), antes portanto da transformação da antiga capela no templo que hoje conhecemos. De acordo com o que registram algumas fotografias da época e é descrito no livro "Uma pequena cidade e um pouco de sua história" (Volume 1), de Walmir Furlanetto, a praça era fechada de arame liso, cujos fios eram sustentados por colunas de ferro, assentadas sobre um muro baixo, contendo ainda quatro portas, também de ferro. Uma praça cercada de arames e possuindo quatro portas de ferro? Isso mesmo, naquela época, ao contrário do que ocorre nos dias atuais, o acesso ao local não era permitido depois de determinado horário da noite. As reformas promovidas no local ao longo dos anos acabaram alterando bastante o aspecto original da praça. Além dos muros, arames e portas que foram retirados, os primeiros bancos de madeira existentes no local foram substituídos, a partir de 1955, por outros de cimento. O chafariz original que ornamentava a praça desde a sua construção deu lugar, na década de 60, à uma fonte luminosa, e mais tarde, no início da década de 80, durante a administração do prefeito Elvio Vicentini Jr, a um monumento contendo o busto de Pedro Izar, antigo produtor rural da região que, a partir de então, também passou a emprestar seu nome à praça da Matriz. Em 1996, durante a administração do prefeito Abelmir Bortolo Tonon, a praça da Matriz passaria por uma nova reforma, com o redesenho de algumas de suas alamedas, remodelação em todos os seus canteiros, implantação do sistema de irrigação por aspersão, substituição da antiga iluminação e plantio de novas árvores. AS TELAS DE CALIXTO O maior orgulho de todo morador de Bocaina ao referir-se à igreja Matriz da cidade não está na praça que a contorna, mas sim nas paredes interiores do templo, que ostentam um dos mais valorosos acervos artísticos de todo o estado de São Paulo. São as 13 telas sacras de Benedito Calixto, considerado um dos maiores expoentes das artes plásticas brasileiras na segunda metade do século 19 e início do século 20. As obras que se encontram na Matriz de Bocaina foram as últimas no gênero executadas por Calixto, artista nascido na cidade de Itanhaém em 1853 e falecido em São Paulo no ano de 1927. Calixto chegou em Bocaina no dia 10 de setembro de 1923, iniciando a pintura das telas alguns meses depois. De acordo com relatos da época, as obras que se encontram na igreja Matriz de São João Batista poderiam estar ornamentando as paredes da igreja Matriz de Jaú, localizada a pouco mais de 20 quilômetros de Bocaina. Isso só não ocorreu porque, segundo esses relatos, a comissão constituída naquela cidade para entender-se com Calixto não teria chegado a um acordo em torno do preço cobrado pelo artista para a execução do trabalho. Sabedor deste fato, o então vigário de Bocaina, José Maria Alberto Soares, deu início a uma intensa troca de correspondências com Calixto, ao mesmo tempo em que ia recusando outras propostas para a decoração das paredes do templo. Dessa troca de correspondências teria brotado uma sólida amizade, além de mútua admiração entre o sacerdote e o artista, o que teria influenciado fortemente a decisão do segundo em aceitar a encomenda das telas para a Matriz de Bocaina. "Os leigos, ao visitarem a Matriz de São João Batista, podem ter a impressão de que as pinturas de Benedito Calixto são afrescos. Contudo, o trabalho não foi executado diretamente nas paredes. As telas foram afixadas por um processo especial de colagem. Calixto pintava as telas em sua casa, em Santos, e as enviava à igreja de Bocaina, onde eram coladas à medida que as remessas chegavam. Outro fato que pouca gente conhece é que o artista exigiu a modificação das colunas internas do templo e a preparação adequada das paredes, de forma a preservar as telas de eventuais danos causados pelo tempo. As reformas foram programadas, segundo planta minuciosamente feita por um próprio filho do autor, Sizenando Calixto"(*). De acordo com o que relata em seu livro "A arte de Benedito Calixto" o escritor bocainense Emmanuel Guedes, da primeira encomenda feita pelo padre ao artista constavam oito telas: "São João apresentando o Divino Mestre ao Povo"; "Anunciação à Virgem Santíssima"; "Descida da Cruz"; "São João diante de Herodes"; "Decapitação de São João Batista"; "São Pedro"; ‘São Paulo"; e a "Alegoria ao Santíssimo Sacramento". Algum tempo depois, foram encomendados outros quatro trabalhos: "Transfiguração de Thabor"; "Discípulos de Emaús"; "Visitação de Nossa Senhora", e "São Zacharias". De acordo ainda com o que é relatado no livro de Guedes, antes mesmo de iniciar o primeiro lote de trabalhos encomendados pelo padre Soares, Calixto já parecia dominado pela idéia de que a morte o espreitava de perto. Dizia com freqüência que a Matriz de Bocaina seria a última igreja que viveria a sua arte. Tendo concluído as quatros telas que se seguiram ao primeiro lote de oito trabalhos, o artista, sentido o agravamento de seu estado de saúde, comunicou ao pároco que não aceitaria mais nenhuma encomenda. Entretanto, em nome da grande amizade que passara a nutrir pelo vigário, concordou em executar, ainda que vagarosamente, outros dois trabalhos: "Cristo no horto" e "Assunção da Virgem". Os dois últimos trabalhos foram executados e entregues no ano de 1925. "Logo depois, de fato, o estado do mestre o impediu de trabalhar. De trabalhar e de viver. Cumpria-se, assim, a sua dolorosa previsão: os quadros da Matriz de Bocaina seriam as suas últimas manifestações artísticas. Benedito Calixto morreu no dia 31 de maio de 1927, sendo sepultado no cemitério de Paquetá, em jazigo perpétuo oferecido pela municipalidade de Santos" (*).Das 14 telas executadas por Benedito Calixto
para a Matriz de Bocaina, uma delas, a "Alegoria ao Santíssimo
Sacramento", foi completamente destruída durante um incêndio que
atingiu a sacristia e
No final da década de 70 e início da de 80, durante o mandato do prefeito Elvio Vicentini Jr, as telas da Matriz foram completamente restauradas, numa iniciativa patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura e pelo Grupo Atalla e em cujo trabalho estiveram envolvidos restauradores oriundos de diversos países da Europa. Em 2006 iniciou-se um novo trabalho de restauração das telas, mediante recursos captados junto à iniciativa privada. através da Lei Rouanet. Além da igreja Matriz de Bocaina, alguns dos mais primorosos trabalhos de Benedito Calixto podem ser admirados na Catedral e na Bolsa do Café da cidade de Santos, no Museu Naval do Rio de Janeiro e no Museu do Ipiranga, em São Paulo. O Masp (Museu de Artes de São Paulo) também conta em seu acervo com diversos trabalhos do artista. CONEGO JOSÉ
Além dos padres Mariano Curia, o primeiro a
assumir a paróquia de Bocaina, e José Alberto Maria
OUTRAS RELIGIÕES A comunidade católica continua sendo a maior de Bocaina em quantidade de fiéis. Mas acompanhando a tendência que vem se reproduzindo a nível nacional, sobretudo a partir das duas últimas décadas, a cidade viu crescer substancialmente nos últimos anos o número de templos evangélicos. Atualmente, a quantidade de templos das diversas religiões de orientação evangélica que atuam em Bocaina supera com folga o número de templos católicos existentes no perímetro urbano, que são quatro ao todo: igreja Matriz de São João Batista, Igreja de Santa Luzia, Igreja de São José e Igreja de São Judas Tadeu. Entre os templos evangélicos mais conhecidos e com atuação mais expressiva junto à comunidade podem ser citados o da Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Presbiteriana, Igreja Assembléia de Deus, Igreja Água Viva e Congregação Cristã no Brasil. A cidade conta ainda com vários outros templos evangélicos, porém menos expressivos que os acima citados no que se refere ao número de fiéis participantes de seus cultos. O mais antigo templo não-católico construído em Bocaina é o da igreja Presbiteriana Independente, fundado no dia 5 de janeiro de 1912, nas esquinas das ruas 15 de Novembro e Theodoro Ricardo, onde permanece até hoje. (*) Trechos transcritos do livro "A arte de Benedito Calixto", do escritor bocainense Emmanuel Guedes |