ASPECTOS CULTURAIS (1)

Influências da imigração italiana

Os imigrantes italianos, que começaram a chegar a Bocaina no final do século 19, principalmente para trabalhar nas lavouras de café, influenciariam decisivamente na formação da identidade cultural do município

Além dos sobrenomes trazidos de diversas regiões da Itália e do sotaque característico e recheado de expressões herdadas de seus pais e avós, que ainda hoje se desprende do linguajar de alguns dos moradores mais antigos de Bocaina, a influência da imigração italiana está presente em vários outros aspectos formadores da identidade do município desde os seus primórdios.

"Os italianos começaram a chegar a Bocaina a partir de 1888, vindos de várias regiões da Itália para trabalhar nas lavouras de café, já que com a abolição da escravatura negra, a mão-de-obra tornara-se carente nesse setor. Podemos considerar [que passou a existir, a partir de então,] uma espécie de escravidão branca em meio aos cafezais brasileiros. O que causou uma certa indignação do governo italiano, porque tinha a informação de que os "oriundi" [imigrantes italianos no Brasil] eram maltratados e se prestavam a um serviço típico de escravidão branca em regime de colonato.

Os imigrantes moravam nas propriedades rurais em rústicas casas de chão-batido (de terra), sem forro, sem luz elétrica ou água encanada. Trabalhavam ganhando por milhares de pés de café empreitados. Também lhes era permitido manter entre os cafeeiros algumas culturas de subsistência, como feijão, arroz, milho e abóbora, produtos que depois de colhidos eram divididos com o fazendeiro. (...)

Mas nem todos os imigrantes italianos que aqui chegaram foram trabalhar nas lavouras de café. Alguns se estabeleceram na cidade, já que entre eles existiam pedreiros, carpinteiros, ferreiros, entre outros profissionais". (*)

Entre as muitas contribuições culturais dos imigrantes italianos para a vida cultural de Bocaina em seus primórdios está a criação da primeira banda musical da cidade, a Carlos Gomes, surgida por volta de 1888. De acordo com o que registra Walmir Furlanetto em seu livro "Uma cidade e um pouco de sua história" (Volume 1) a partir de relatos de antigos moradores, a corporação musical teria nascido na fazenda Santana e contava, em seu início, com 21 componentes. Embora constituíssem a maioria, nem todos os músicos eram de origem italiana.

Ainda segundo o mesmo autor, a primeira apresentação pública da banda teria ocorrido durante a festa de São João, padroeiro do município, do ano de 1890.

O primeiro regente foi Arthur Perondi, que em 1901 foi substituído por Angelo Amarante, que continuou na regência da banda até 1903. Em 1904, a regência foi assumida por Alexandre Perondi, maestro que permaneceu na função até 1908. Nesse ano, já sobre a regência de Franscisco Gioiosia e numa espécie de homenagem às origens de seus fundadores e maioria de integrantes, a banda muda seu nome para Corporação Musical Príncipe Piemonte. Alguns meses depois voltaria a mudar de nome, desta vez para Gomes-Verdi, juntando os sobrenomes do maestro e compositor brasileiro Carlos Gomes ao do italiano Giuseppe Verdi. A banda ostentaria essa denominação até 1927, quando sob a regência do maestro Túlio Guiselli voltaria ao seu nome de fundação, Carlos Gomes, que ostenta até os dias de hoje.

Como a grande maioria das corporações musicais de seu gênero, a banda Carlos Gomes se ressente de uma renovação entre seus integrantes. Atualmente ela ainda sobrevive graças ao empenho e à relutância de alguns de seus antigos integrantes, com raras apresentações em procissões, nas festas de São João e realizando as alvoradas em comemoração ao dia Dia do Trabalho (1º de maio). Recentemente, integrantes da família Marangoni, que ao longo dos anos forneceu vários músicos para a Carlos Gomes, produziram um CD com algumas das músicas tradicionalmente executadas pela banda.

FASCIO ITALIANO

Um local para servir de ponto de referência e de integração entre as diversas famílias de origem italiana do município. Partindo desse objetivo primordial, a colônia italiana de Bocaina inaugurou por volta de 1900 a Societá Operária Di Mutuo Soccorso Fascio Italiano, que passou a funcionar num prédio imponente construído numa área de cerca 800 m2, na esquina das ruas Tiradentes e Floriano Peixoto. A construção guardava traços em estilo romano, com fachada redonda e uma grande porta principal, quatro grandes janelas em sua parte baixa e outras seis pequenas na parte alta . A construção era dotada de um grande salão de festas, palco, sala para conferências e camarins.

Além de servir de local para as reuniões da comunidade italiana do município, durante o período em que esteve em atividade o Fascio Italiano abrigou apresentações musicais e teatrais, inclusive de algumas companhias italianas que passaram pelo país durante aquele período.

Os registros a respeito dos motivos que levaram ao desaparecimento do Fascio Italiano são quase tão inexistentes quanto os que se referem à sua fundação. A respeito de seus fundadores, o único registro que se tem é o que consta de uma fotografia do interior do prédio feita em 1908, onde num cartaz com o título "Commissione Constrottora" (Comissão Construtora), afixado numa das paredes, estão relacionados os seguintes sobrenomes de integrantes da colônia italiana da época: Marzo, Ascari, Masson, Del Gesso, Borilli, Morandi, Sola, Melotti, Tamamim, Verdiani, De Callis, Armentano, Amarante, Grecca, Scartezini, Rossi, De Callis, entre outros.

Também não existem registros documentais a respeito de quando a sociedade encerrou as suas atividades. Acredita-se, por relatos orais de antigos moradores, que isso tenha ocorrido por volta de 1930.

"O que se sabe verdadeiramente é que a Societá Di Mutuo Soccorso Fascio Italiano deixou de existir em 1948, quando os sócios remanescentes decidiram em assembléia pela sua extinção. O patrimônio foi doado pelos italianos ao município e ali passou a funcionar o Posto de Puericultura. Os sócios que decidiram pela extinção foram: G. Antônio Stellin, Menotti Ciocchetti, Fortunato Angelo Natali Pirágine, João Del Bianco, Romeu Ciocchetti, Francisco Potenza, Túlio Ghiselli, Francisco Gorni, Augusto Stellin, Henrique Inforzato, Antonio Milanese, Augusto Gasparini, José D’ Arelli e Paschoal Nigro Sobrinho". (*)

Com a dissolução da sociedade formada pelos membros da colônia italiana, o prédio passou para o controle da prefeitura. Entre 12 de agosto de 1946 a 24 de julho de 1951 foi ocupado pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) , que implantou no local o Posto de Puericultura. Na verdade, embora a sociedade somente tenha sido desfeita em 1948, o Posto de Puericultura já vinha funcionando no local desde 1946. Em 1951, com a transferência do posto para  novas instalações, o prédio voltou a conhecer o abandono.

Em 1963, através de um projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal, o prédio foi doado ao governo para a instalação no local da Casa da Lavoura do município. Pouco meses depois iniciava-se a demolição do antigo Fascio Italiano para a construção em seu lugar do prédio que abrigaria a Casa da Lavoura, apagando para sempre da paisagem arquitetônica de Bocaina aquele que foi o maior símbolo de um período em que as tradições italianas eram cultivadas dentro do município por uma numerosa e ativa colônia de imigrantes.

Apesar do desaparecimento do prédio do Fascio Italiano, vários outros prédios erguidos em Bocaina no início do século 20 ainda preservam características inconfundíveis da influência da imigração italiana no município, seja pelas imitações de colunas romanas em suas fachadas ou por detalhes ainda mais evidentes, como o brasão da Itália colocado ao lado do brasão brasileiro que ainda hoje estão presentes na fachada do prédio onde funcionou no passado a Casa Inforzato, ao lado do prédio da prefeitura, na rua 15 de Novembro.

O desenvolvimento do comércio e da indústria em Bocaina também teve um forte impulso a partir de empreendimentos iniciados por imigrantes italianos e depois levados adiante por seus descendentes. Entre as famílias de imigrantes italianos que emprestaram seus sobrenomes a empreendimentos comerciais e industriais no município podem ser citadas: Megale, Ciocchetti, Armentano, Inforzato, Gasparini, Greca, Potenza, Galetti, Ferrari, Nigro, Rossi, Stellin, Mazzafera, Verdiani, Del Bianco, Morelli, Ciotti, entre tantas outras.

OS ESPANHÓIS

Embora em número bem mais reduzido que o de italianos, Bocaina também recebeu um importante contingente de imigrantes espanhóis a partir do final do século 19. A exemplo da maioria dos italianos, eles também vieram para compor a mão-de-obra que se encontrava escassa nas lavouras de café desde a abolição da escravatura. Também como muitos dos italianos, a maioria deles sonhava em fazer dinheiro nessa atividade e depois retornar ao seu país de origem. Entretanto, diante das precárias condições de trabalho com que acabaram se defrontando nas fazendas onde foram trabalhar, poucos foram os que conseguiram realizar esse intento.

Ao contrário do ocorrido com os italianos, das famílias de imigrantes espanhóis que vieram para Bocaina poucas foram as que se estabeleceram em alguma atividade comercial ou industrial. Também ao contrário dos primeiros, os imigrantes espanhóis, talvez devido ao seu número bem mais reduzido, não chegaram a estabelecer laços comunitários mais profundos dentro do município.

De acordo com o que é relatado por alguns moradores mais antigos da cidade, durante um determinado período teria prevalecido uma certa animosidade entre as duas colônias de imigrantes. As famílias de italianos não permitiam, ou no mínimo não viam com muita simpatia o casamento de seus filhos com imigrantes ou descendentes de espanhóis, sentimento que era recíproco da parte destes.

Ainda segundo esses relatos, os espanhóis entendiam que os italianos, por formarem a maioria dos imigrantes que vieram para o município e pelo fato de muitos de seus patrícios estarem estabelecidos no comércio, lhes dedicavam um certo desprezo.

Nas fazendas, segundo ainda o que é contado por antigos moradores, a maior alegria de um italiano ou de seus descendentes era ver a lavoura de um espanhol fracassar. E adivinhe qual era a maior alegria dos espanhóis?

A veracidade ou não de semelhante animosidade entre italianos e espanhóis que se estabeleceram em Bocaina a partir da segunda metade do século 19 é apenas um detalhe que deve ser tomado pelo lado cômico ou pitoresco diante da gigantesca e sofrida história de vida construída por essas duas vertentes de imigrantes, que um dia deixaram os seus países de origem para ajudarem a construir o desenvolvimento e a riqueza de uma terra distante.

(*)Trecho transcrito do livro "Uma cidade e um pouco de sua história (Volume 1), de Walmir Furlanetto

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