Bocaina nas memórias de Luiz Villanova

Os depoimentos desta página foram concedidos por Luiz Valentim Villanova em entrevista gravada em vídeo por Antônio Laudicir Teixeira em 1999.

O advogado aposentado, nascido em Bocaina em 05 de fevereiro de 1917 é descendente de uma das primeiras famílias de moradores de Bocaina. Vivendo em São Paulo há várias décadas, ele conta aqui as suas lembranças do passado na cidade e revela passagens interessantes de um período glorioso da nossa história.

Memórias dos antepassados

Após a abolição da escravatura, em 1888, não havia mais mão de obra para ser utilizada nas fazendas. Os fazendeiros iam ao porto de Santos ou a São Paulo, na Casa de Imigração, contratar mão de obra dos imigrantes europeus, principalmente italianos, para as suas lavouras.

A família do avô de Villanova, Victório Oliani, chegou em Bocaina com as famílias Sarsi, Sposti e Graciano, em 1º de julho de 1891. O município acabava de ser criado. Depois de viajar pela estrada de ferro até Jaú, elas vieram a Bocaina em carro de boi, numa viajem que lavava o dia todo. Foram trabalhar nas terras do fazendeiro Onofre Sampaio de Almeida Prado, cuja propriedade é a que hoje se denomina fazenda Himalaia. Depois de quatro anos na fazenda, o avó de Villanova mudou-se para a cidade, comprando uma casa na rua Cerqueira Cézar, atual rua 15 de novembro.

Memórias das fazendas

Os pagamentos nas fazendas eram feitos de três em três meses e no final do ano era realizado um pagamento geral. "O ano agrícola era diferente do ano comercial. No antigo sistema de patronato ele começava em 1º de outubro e terminava em 30 de setembro. As famílias de colonos se comprometiam com os fazendeiros de cuidar da colheita de determinado número de pés de café. Além disso eles ganhavam uma certa área onde podiam plantar e manter as suas criações. Quando não era época da colheita de café eles ganhavam por dia para fazer outros serviços na fazenda. Era o sistema do colonato, através do qual o patrão sedia a casa para a família enquanto esta estivesse trabalhando em sua propriedade", recorda Villanova.

Memórias do futebol

Por volta de 1915 já se jogava futebol em Bocaina. Os membros da família Montenegro faziam parte dos primeiros praticantes do esporte na cidade.

Entre as passagens pitorescas narradas por Villanova sobre os primeiros tempos de futebol na cidade estão as protagonizadas por um atacante chamado João Peres: "Ele gostava de tomar uns goles antes de entrar em campo e todos os adversários morriam de medo de tentar roubar-lhe a bola. Ele se enfurecia quando isso acontecia e costumava ser bastante violento".

O estádio da época estava localizado entre o atual estádio e a propriedade de Francisco Tibagi de Almeida Prado, atual chácara da família Calciolari. Villanova conta que jogar ali era um transtorno para os jogadores da época, pois Almeida Prado costumava furar as bolas que caiam em sua propriedade com tiros de uma carabina que possuía.

Em 1924 nasceu o Bocaina FC. O campo de futebol utilizado pelo time ocupava a quadra onde está localizada atualmente a praça Zeca Livino (Santa Luzia). "Eu assisti muitos jogos ali" , conta Villanova. Entre alguns jogadores que marcaram época naquelas primeiras formações do Bocaina, ele cita: Mario Marasqualque, Pedro Sposti (Pileta), Augusto Gaba e Volpi.

Em 1931 o presidente do Bocaina era o dentista Argemiro de Freitas. Foi ele o responsável pela contratação de José Damazine, até então jogador em Bariri, e que acabou se transformando num dos principais jogadores da história do time bocainense. Mais tarde ele também foi treinador da equipe.

Segundo Villanova, havia uma rivalidade muito grande entre Bocaina e Bariri. O time de Bariri não ganhava de Bocaina há muito tempo. Num determinado jogo, na tentativa de quebrar o tabú, os baririenses contrataram vários jogadores do time do Sírio, de São Paulo, para enfrentar o Bocaina em um amistoso. "Apenas um jogador era de Bariri, e o goleiro era de Jaú. Bocaina venceu por 2 a 1, e foi um jogo que ficou marcado na história do nosso time", conta. Villanova guarda com carinho várias fotografias dos times da época em seu arquivo pessoal em São Paulo.

"Na época se jogava com o coração. Hoje é só dinheiro, se não pagar ninguém joga", afirma.

Ainda na época em que o campo de futebol era na praça de Santa Luzia, um dos gols ficava do lado da rua Floriano Peixoto e o outro da rua José Pereira. Como ainda não havia sido adotado o uso de redes nas traves, Villanova diz que muitas vezes haviam dúvidas e discussões sobre se a bola tinha mesmo entrado no gol.

Em 1928 o prefeito Marcílio Ribeiro do Amaral transferiu o campo para o local onde hoje está o bairro Nova Bocaina. Nessa época Villanova treinava na equipe infantil do Bocaina FC.

Por conta disso ele também acompanhou toda a construção do atual estádio municipal Marcílio Ribeiro do Amaral.

A piscina existente atrás do estádio foi construída com dinheiro emprestado pela diretoria do Clube União.

"Nessa época os fazendeiros da cidade reuniam-se na Casa Freitas, onde hoje é a Nossa Caixa. Toda tarde um grupo deles ia nadar na conhecida lagoa dos Montagna, que eram proprietários rurais no município. Entre eles estavam Olavo Alvim, Arthur Ambrósio e Orides Brandão Campanhã. Foram eles que incentivaram a construção da piscina municipal.

Memórias dos clubes

O Clube União foi o primeiro da cidade e era o ponto de encontro da elite, freqüentado apenas pelos grandes fazendeiros de café do município. "A primeira diretoria tomou posse por volta de 1914 e a sua primeira sede ficava na rua 7 de setembro, defronte ao antigo Cine Éden. "Eu era garoto e ficava vendo aqueles homens que jogavam bilhar e não entendia nada daquele jogo", recorda Villanova.

O Clube ficou neste primeiro endereço até por volta de 1924, mudando-se depois para o prédio existente atrás da igreja matriz, onde mais tarde também viria a ser a primeira sede do Nosso Clube.

Em 1927, quando o aviador jauense João Ribeiro de Barros foi homenageado em Bocaina após a travessia pioneira do Atlântico no hidroavião Jahu, a solenidade aconteceu neste endereço. Por volta de 1931 o União mudou-se para o prédio onde hoje funciona o Nosso Clube, que ainda não existia. Segundo Villanova, os filhos dos italianos não tinham acesso ao Clube União. Eram poucos os que podiam freqüentá-lo. A colônia italiana costumava realizar as suas festas e sobretudo o carnaval no prédio do Fascio Italiano, que ficava onde hoje está a Casa da Agricultura. Foi daí que a colônia italiana decidiu criar o seu próprio clube. Antes disso, porém, em 1931, quando o Clube União saiu da sede onde hoje está o Nosso Clube, a família Freitas, proprietária do prédio, resolveu criar um "rink" de patinação no local. O empreendimento não prosperou, sendo fechado no ano seguinte. A partir de então o prédio foi fechado. Foi quando os jovens italianos resolveram fundar o Nosso Clube.

Era maio de 1932. Dois meses depois estourou a revolução de julho, fazendo com que as atividades do clube fossem paralisadas. Depois da revolução o projeto foi retomado. "As pessoas começaram a voltar a freqüentar o local e o clube foi se reerguendo. Villanova foi eleito secretário do Clube com 17 anos.

A compra definitiva do prédio pela diretoria foi realizada mediante um empréstimo feito à diretoria pelo médico e ex-prefeito da cidade Aloysio Muniz Barreto.

"Não fosse isso teria acabado o clube em Bocaina. Depois ele se desenvolveu e se transferiu para a atual sede", lembra Villanova.

Memórias da estrada de ferro

Na primeira metade do século passado a estação de trem da Companhia Douradense, localizada na praça onde hoje está o terminal rodoviário, era a principal janela de Bocaina para o mundo exterior.

Todas as tardes, por volta das 16h30, aquele era o local de passeio preferido de moças e rapazes que iam acompanhar a chegada do trem que vinha de São Paulo.

As despedidas para os que partiam da cidade com destino à capital lembravam aquelas velhas cenas em branco e preto do cinema, onde não faltavam lenços, acenos e muitas lágrimas.

"A gente embarcava na estação para São Paulo e a família vinha toda se despedir. Era como se você estivesse indo para a Europa", diverte-se Villanova com a lembrança.

"E muitas vezes você tinha que viajar em pé daqui até São Paulo, porque o trem já vinha lotado de Bariri. E nessa época já existiam os batedores de carteira, que não usavam dessa violência que existe hoje, mas já eram uma preocupação constante para essas pessoas que eram obrigadas a viajar em pé".

A velha Maria Fumaça saia de Bocaina às 6 horas e só ia chegar na Capital às 17h30.

A primeira viagem de Villanova para São Paulo se deu em 1925.

"De lá nós fomos conhecer o Guarujá. Depois de desembarcar na Estação da Luz, você pegava um outro trem para descer a serra do mar. No Guarujá não tinha nada na época, apenas um pequeno hotel num prédio térreo. Mas foi uma viagem inesquecível".

Villanova acompanhou os benefícios proporcionados pela estrada de ferro à vida de Bocaina e de seus moradores.

"Tínhamos aqui nessa época cerca de 8 milhões de pés de café. Jaú tinha 18 milhões. Então era a estrada de ferro que transportava toda essa produção, substituindo os lombos de burro" conta.

De fato toda a economia das cidades da região dependia exclusivamente das fazendas de café.

A maior prova da força da cafeicultura nesse período é que os fazendeiros do município de Bocaina resolveram criar um banco próprio na cidade. Ele surgiu em maio de 1929 com o nome de Banco Paulista S/A, e com capital de 100 contos de réis, o padrão monetário da época.

Mais tarde o banco implantou filiais nas cidades de Jaú, Barra Bonita, Bariri, Dourado, Itapuí e Pederneiras, com a sua matriz permanecendo em Bocaina.

Villanova foi um dos primeiros funcionários da agência de Bocaina do banco.

Sobre essa época ele conta uma passagem pitoresca ocorrida na agência: "Um cliente foi depositar uma grande quantia e depois de algum tempo quis ver na agência o mesmo dinheiro que havia depositado. Foi muito difícil explicar e convencê-lo de que o banco fazia as suas operações com o dinheiro".

Memórias de uma cidade em obras

O calçamento de Bocaina foi iniciado pela esquina das ruas 15 de novembro com a coronel Pedro Alexandrino. Os blocos de pedra vinham de Itatiba pela estrada de ferro. Demorava um mês aproximadamente a conclusão dos serviços em cada quarteirão. O último quarteirão a receber calçamento foi a 13 de maio, em 1929, que teve os serviços interrompidos por causa da crise da Bolsa de Nova York. O calçamento no local ficou paralisado até por volta de 1950.

Memórias do primeiro cinema

Villanova diz que não se recorda da fundação do Cine Éden, o primeiro cinema da cidade. Mas se recorda da sua existência a partir de 1923. "A banda da cidade tocava nas sessões da noite. Depois da segunda música tinha início o espetáculo".

Os filmes de então eram apresentados em várias partes. Depois acontecia um intervalo, quando as pessoas deixavam a sala para beber café e comer pastéis. Ainda não existia o cinema falado.

Nas noites de carnaval era comum parar o filme para as pessoas atirarem serpentinas entre as cadeiras colocadas na sala.

Memórias dos primeiros carros

No início do século todo o transporte era feito por tração animal. Em razão disso existiam várias oficinas que fabricavam e consertavam carroças e ferravam os animais utilizados para este fim. Entres elas as mais conhecidas eram: Graciano Pini (bairro Chinês), Alderbe Sposti (centro), Oficina Ciotti (próxima à Santa Casa), Augusto Gabas (no final da rua Américo Brasiliense).

Para se dirigir a Jaú, como não existiam automóveis, algumas pessoas utilizavam os troles de quatro rodas. Os vendedores, chamados na época de caixeiros viajantes, também vinham de troles para Bocaina.

Os primeiros automóveis começaram a aparecer no Estado de São Paulo por volta de 1924. Eles vinham desmontados dos EUA e acompanhados de engenheiros da Ford, que ensinavam a sua montagem aos funcionários das distribuidoras.

"Quando o primeiro Ford, conhecido por "Pé de Bode", chegou em Bocaina, muitas pessoas se deitavam no chão para olhá-lo por baixo, tamanha era a curiosidade com aquela novidade", conta Villanova.

Memórias dos antigos comerciantes

Os estabelecimentos pioneiros do comércio em Bocaina também foram lembrados por Villanova em suas narrativas sobre o passado da cidade. Ele citou alguns que tiveram papel de destaque nos tempos da sua infância e juventude, como a Casa Laterça, de Antonio Laterça; Casa Grecca, de Antonio Grecca; Casa Inforzato, de Antonio Inforzato; Irmãos Galletti; Irmãos Lahoz e Casa Nigro.

"E muitos desses comerciantes tinham bombas de gasolina defronte aos seus estabelecimentos. "Bocaina na época tinha uma série de bombas de gasolina".

Memórias da revolução

Durante a revolução constitucionalista a cidade de São Paulo foi bombardeada e muitas pessoas resolveram se refugiar na casa de parentes no interior. Para Bocaina também vieram muitas pessoas nessa época. Aqui existia um cônsul italiano, chamado Giusepe DelTchesso. Como esses paulistanos que acabavam de chegar eram na sua maioria descendentes de imigrantes italianos, resolveram visitá-lo. O conde era proprietário de um hotel que estava localizado onde hoje funciona o Centro de Saúde Dr. Hélio Inforzato.

Como se tratava de uma visita ao cônsul, todos trataram de se vestir da maneira mais elegante que podiam. Ao chegarem ao local depararam com um senhor que, de machado em mãos, cortava algumas lenhas que retirava de um grande monte existente ao lado do prédio do hotel.

Quando anunciaram que o motivo que os trazia até ali era o desejo de conhecer o cônsul italiano, tiveram uma surpresa: o cortador de lenha, sem interromper o que estava fazendo, disse que eles falavam com o próprio.

"Eles foram visitar um cônsul e encontraram um cortador de lenha. Quando iam imaginar um negócio desses?"

Memórias da escola

No começo do século não haviam escolas em Bocaina. Os fazendeiros mandavam os seus filhos para estudar em São Paulo.

Mas entre os italianos existiam pessoas de muita cultura. E foi a colônia italiana que criou a primeira escola no município. Como era a única, era nela também que estudavam os filhos dos brasileiros.

"Era um absurdo ver brasileiros aprendendo Italiano na escola naquela época", comentou Villanova. Essa situação perdurou até a fundação do Grupo Escolar.

Memórias da velha praça

Nas primeiras décadas do século passado a praça da matriz era inteira fechada por grades e o acesso ao local era feito por quatro portões.

As moças circulavam pelas alamedas que contornavam os canteiros em um sentido de direção e os rapazes no sentido contrário. Ainda não havia o calçamento nas alamedas. Quando eram 21 horas o jardineiro começava a fechar todos os portões e as pessoas tinham que deixar o local.

Villanova relata uma passagem interessante ocorrida na praça no ano de 1926: "Um senhor que residia nas proximidades do antigo bar Tremembé teve um ato de loucura e começou a cortar com um machado as arvores da praça, pois considerava uma vergonha os casais de namorados que ficavam no local. Um guarda noturno conseguiu detê-lo depois que ele já havia derrubado cerca de oito árvores da praça".

São infindáveis as memórias de Luiz Villanova sobre o passado da cidade. Aqui reunimos apenas uma pequena parte delas em homenagem a este grande bocainense e a todos aqueles que também compartilharam do período da história da cidade aqui descrito por ele.

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