O Bar do Lito escreveu capítulo inesquecível da vida de Bocaina

José Henrique Teixeira

O restaurante do Lito, bem na esquina da praça da Matriz, na rua 15 de Novembro, marcou época em Bocaina. Foram cerca de três décadas de história, com uma comida que era falada em toda a região. Todos sabiam da leitoa e do frango à passarinho servidos pelo Lito. O seu gostoso arroz com feijão, feitos no capricho pela esposa, dona Áurea, o famoso palmito da salada.

O Bar e Restaurante do Lito era também o ponto de encontro de boêmios e seresteiros. A própria casa tinha um violão e um acordeon e quem chegasse e soubesse tocar, podia pegar os instrumentos e mostrar seu talento. Grande músicos da região, como o Tunin Capelozza, de Jaú, apareciam ali com freqüência, com seus próprios instrumentos, incluindo saxofone e bandoneon. De vez em quando também aparecia o Gil Rezende, do Agitação 5, de Bariri.

Mas é preciso contar essa história do começo. Num sábado, 19 de julho de 1969, o cidadão Aurélio Debiazzi, este era o nome do Lito, que poucos sabiam, sentado numa das mesas do bar, conversava com o então proprietário, David Marques Ferreira. O negócio saiu e, de repente, Lito passou para o lado de dentro do balcão, tornando-se o novo proprietário do chamado Bar Ponto Chic. Ele trocava a oficina de serralheria pelo comércio de bar e restaurante.

Veio a idéia de dar um novo nome ao estabelecimento. Naquele 19 de julho, a nave Apollo 11 estava chegando à Lua, na primeira viagem do homem ao satélite natural da Terra. Chegou no dia 20 de julho. Surgia, então, o nome do estabelecimento: Bar Astronauta.

Foi interessante que o nome não pegou. Acredito que tenha sido melhor assim. Ficou Bar do Lito, homenageando esse grande comerciante. E ninguém mais falava Astronauta, mas sim "vamos no Lito?".

Ao longo dos anos, muitas personalidades passaram pelo Lito. Para citar algumas, Jânio Quadros, Luiz Inácio Lula da Silva, Orestes Quércia, bem como do mundo esportivo, Ademir da Guia, Dudú, Nei, Fiori Gigliotti, entre outros. Embora fosse sãopaulino fervoroso, Lito fez questão de pendurar na parede do bar a sua foto ao lado do "Divino" Ademir da Guia, craque do Palmeiras.

O Lula, quando esteve no Lito, era ainda presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Foi trazido pelo amigo João Marcílio Affonso Ribeiro do Amaral, o Chóca. Bebeu cachaça, fumou cigarro de palha e fez discurso em cima de uma cadeira.

O Fiori Gigliotti, um dos maiores nomes do rádio esportivo brasileiro, vinha sempre ao Lito. Quando estava pela região, telefonava e pedia o cabrito ensopado. O Lito fazia e ele aparecia para se deliciar. Depois falava do Lito nas transmissões esportivas na Rádio Bandeirantes.

E ao Lito vinha gente de toda a região. De Jaú, aparecia sempre um grande número de bancários, especialmente às sextas-feiras. O Fava do Banco Sudameris vinha com toda a sua turma. Vinham também outros bancários e comerciantes jauenses. Vinha o Danilo Pazzian, de Dois Córregos, duas vezes por semana. No meio da semana, com amigos que iam com ele a um sítio que tinha em Bocaina. Aos sábados, aparecia com toda a família e entre os fillhos a menina Magaly, hoje secretária de Transportes e Trânsito em Jaú.

A maioria ia para saborear a leitoa e o frango à passarinho, sem igual. Outros encomendavam um cabrito ou um carneiro. E o Lito preparava. Havia também um grupo formado por Heráclito Lacerda, Dudu Armentano, Angelin Ghiselli, Vicente Megale, Teotônio Pires de Campos, Orlando Gasparini, Guido Moretto, Zinho Pagan, Ivo Segnini, que pedia a cozinha do Lito para preparar pratos diferentes. Eles mesmos faziam gostosas feijoadas, bacalhoadas, camarão, e à noite saboreavam, acompanhado de muita cerveja ou de um bom vinho.

A leitoa à passarinho do Lito não tinha –e nem precisa ter- essa história de passar por diversos tachos para fritar. Era apenas um tacho, com bastante óleo e ele bem quente. O teste podia ser feito jogando-se um palito de fósforo: se ele acendesse, o óleo estava no ponto. Aí era só jogar os pedaços de leitoa previamente temperados e deixar chegar no ponto.

Nos dias de semana, de menos movimento à noite, vinham os boêmios locais, tocavam e cantavam, no bar ou no salão do restaurante. Tinha de tudo, de sertanejo à seresta. E muitas vezes, o grupo saía do Lito em serenatas pela cidade. O Denílson Budin, o João Luiz e o Edson Marangoni, Antonio Caciola, Bertim Burjato, Zuino Cardoso, Nabor Tristão, Paraná e outros, tinham o Lito como ponto de encontro para as serenatas.

Tarde da noite tinha a "sucata" para os boêmios. O Lito ia até a cozinha e voltava com uma travessa cheia de pedaços de frango e de leitoa à passarinho, que voltaram intocados das mesas do restaurante porque os clientes não conseguiram comer toda a porção servida. E a turma se deliciava com a "sucata".

Outro episódio inesquecível foi a conquista do tri pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970, no México. O bar parecia um auditório, todo mundo grudado na televisão na final entre Brasil e Itália. Na frente do bar estava hasteada a bandeira brasileira. O Zero Bazzoni –que subia no pau de sebo nas festas de São João- falou que se o Brasil conquistasse o tri levaria a bandeira do Brasil ao alto da torre da Igreja Matriz. Quando fizemos 3 a 1, a bandeira já foi colocada nas mãos dele. Não teve dúvida: Bazzoni subiu na torre e amarrou a bandeira na cruz, lá no alto. No outro dia, subiu de novo para retira-la.

Quando Lito comprou o bar do David, seus filhos eram pequenos. Os meninos se deliciavam com os doces da vitrine. Depois, enjoaram... e cresceram. Passaram a ajudar o pai. O Eduardo, o Beto e o Rinaldo. O Beto seguiu carreira acadêmica e foi embora mais tarde. Ficaram com o pai e seguiram com o "Bar do Lito", após a morte prematura de Aurélio Debiazzi, os filhos Eduardo e Rinaldo e.., claro, a dona Áurea, na cozinha.

Lito escreveu, com seu estabelecimento, um capítulo importante da história de Bocaina, que não será esquecido. Ainda hoje, em todo lugar, as pessoas se lembram da leitoa e do frango à passarindo do Lito, do ambiente gostoso. Ele ia pessoalmente às mesas conversar com os clientes. De repente, não custava mandar embrulhar uma lata daquele palmito Rail, que só ele tinha na cidade, e dar para o freguês que elogiou o produto.

Com orgulho, posso dizer que fiz parte dessa história, por cinco anos, em plena juventude.

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